O impacto público da polémica sobre os aviões da CIA envolvidos no transporte clandestino de prisioneiros, no âmbito da guerra contra o terrorismo, deu visibilidade ao passatempo de alguns milhões de pessoas em todo o mundo o spotting..Como os bloggers, aquando do tsunami asiático de há um ano, agora foram os spotters a dar dados relevantes aos media sobre a localização e movimentos dos aviões da CIA - havendo já quem os considere uma ameaça à segurança dos EUA..Equipados com máquinas e lentes fotográficas, às vezes com receptores (scanners) para captar as conversas entre controladores aéreos e pilotos, e também com "muita paciência", os spotters podem passar horas, sozinhos ou em grupo, junto a um aeroporto ou aeródromo - às vezes para fotografar um avião. .A quantidade, qualidade e variedade de "bonecos" é que os distingue. Os spotters têm subdivisões uns preferem aviões civis, outros só militares, alguns recusam-se a fotografar helicópteros. Há os que privilegiam a acção das aterragens e descolagens, outros esperam até não haver ninguém em redor dos aparelhos - e também há fanáticos, como o cubano-americano Crazy Jorge, que se recusam a tirar fotografias se houver uma nuvem no céu..Portugueses. Em Portugal existem cerca de 300 spotters, 140 dos quais filiados na Associação Portuguesa de Entusiastas da Aviação, disse ao DN o seu presidente, Luís Gonçalves. Uma gota, se comparados com os 60 mil britânicos registados - num universo de mais de um milhão de adeptos que praticam esse hobby nas ilhas de Sua Majestade..Autor das fotos publicadas na imprensa sobre os referidos aviões--prisões, Luís Gonçalves é um economista de 28 anos que desde os 18 vai para junto das pistas fotografar aviões e registar dados como o modelo, a versão, o fabricante, a cor, o número de cauda, a companhia ou, no caso dos aparelhos militares, a unidade a que pertencem.."Os aviões russos são os mais procurados. São grandes máquinas, fazem muito barulho, deitam muito fumo, são um espectáculo de ver", pelo que "vale sempre a pena" ir do Porto a Lisboa ou Faro para coleccionar imagens de novos aparelhos, contou, dando como exemplo a viagem ao aeroporto da Portela nas vésperas da última final da Taça UEFA (com o CSKA de Moscovo)..Há mesmo quem, como Luís Pontes, vá propositadamente ao estrangeiro este ano foi a Madrid (Aeroporto de Barajas) e, em 2006, irá a Amesterdão (Schiphol) - por onde passam aviões, alguns com "pinturas especiais", e de companhias aéreas que raramente ou nunca escalam os aeroportos portugueses..Mais sorte tem o açoriano João Sequeira, dado o longo historial de Santa Maria no mundo da aviação civil ou a importância da base militar das Lajes. Fundador do site azoresairphotos.com, admite que "podem colocar-se questões que até aqui não se puseram" em torno do seu passatempo. Rejeitando, como os outros spotters ouvidos pelo DN, que o hobby seja uma ameaça, está disposto a aceitar restrições - não ao tirar fotos, mas ao tipo de dados publicados na Net (localização dos aeroportos, data/hora da escala)..Curiosamente, se o 11 de Setembro tornou mais difícil tirar fotos nalguns locais, noutros - como o aeroporto londrino de Heathrow - partiu das autoridades aeronáuticas utilizar os spotters para reforçar a segurança local, acreditando-os e vinculando-os a um código de conduta que complementa a acção policial..Contudo, há múltiplos casos de problemas entre spotters e autoridades. Dois exemplos em 2001, 12 ingleses e dois holandeses foram acusados de espionagem por fotografar aviões numa base militar grega; em 1998, o brasileiro Gianfranco Beting viu-se sob um helicóptero da Polizia e perante uma viatura blindada dos Carabinieri no aeroporto de Roma.